sábado, 25 de junho de 2016

Realismo esperançoso

Deitada na banheira velha da casa na floresta que peguei emprestada para o que eu planejava para o fim de semana, olhando pro teto de madeira, lembrei de um livro sobre física nuclear que havia lido por passatempo e teimosia há um tempo atrás e como ele explicava a relação entre massa e energia. Um nêutron a mais em um núcleo de um átomo de urânio-235 causa uma instabilidade tamanha que a única saída é esse átomo multiplicar-se e, nesse rompimento, uma grande quantidade de força é liberada. Sei do desequilíbrio químico em meu cérebro, e esse é um conceito do qual acho graça, mas enquanto a água escaldante da banheira finge ser fria como castigo pro meu corpo imóvel que fazia pouco caso da presença dela, só consigo pensar nos desequilíbrios físicos que estariam liberando a força necessária pra que minha cabeça ainda se mantivesse fora d'água.

Na varanda, chego à conclusão de que não é nada silencioso ou escuro aqui e que a certeza do frio foi a única que profetizei certeiramente. Apaguei todas as fortes luzes que iluminavam do caminho de madeira pela grama até o riacho que começava a se formar depois que pedras em ordem crescente de tamanho começavam a brotar do chão. Eu era parte daquilo; o brilho da lua que iluminava a mim, provavelmente também estava iluminando o bicho-preguiça que achei ter visto pela tarde. Vez ou outra divago sobre a necessidade de atenção. Depois da vez que, ainda na casa dos meus pais, me olhei no espelho e vi uma mulher, a ideia de dar explicações começou a soar cada vez mais aterrorizante. Eu sou, eu gosto, eu prefiro, eu sinto. Eu já sabia de todas essas coisas e, nesse momento da vida, bastava eu saber. Claro que isso me fazia duvidar da minha profissão, da minha pesquisa de cunho antropológico e até do meu caráter, mas em mim eu confiava esse conjunto de características. Mas já nem me importava tanto com a pesquisa e a carreira e oh-aquelas-coisas-importantíssimas-pelas-quais-me-desesperei-pra-conseguir, e eu sabia que isso aconteceria porque os dois últimos livros que comprei eram sobre o futuro dos ursos polares caso o aquecimento global não desacelerasse e, antes disso, havia me interessado pela história de vida desse cara que largou toda estabilidade que tinha pra navegar durante sete anos ao redor do mundo.

Acabei dormindo enrolada em dois cobertores na poltrona-divã da varanda do segundo andar, que tinha vista para o quintal atrás da casa, antes que o chá  alcançasse uma temperatura que não rasgasse a minha garganta e eu de fato o consumisse, e quando acordei, o sol que surgia na frente da casa alcançava todo aquele verde a minha frente, que parecia ser um quintal quase infinito. Eu ainda fazia parte daquilo. A noite já havia ido embora mas de alguma forma a sensação de pertencimento permaneceu. Eu pertencia a vários lugares e pessoas e interesses e projetos mas todos com prazos de validade já decorados por mim. A minha ligação mais forte era com a noite. Fora as vezes nas quais eu perdia a briga contra a química em meu cérebro, uma certeza que eu tinha era que a noite me daria colo, mas já havia acostumado de tal forma com os raios de sol carregados de realidade e falsos incentivos tirando isso de mim que já nem me desapontava mais.

Nunca vou conseguir fazer o que vim aqui pra fazer, era a minha certeza momentânea. Me desfaço das minhas certezas assim que chego a uma decisão, então repenso. Ou coisas como a surpresa de uma manhã com o cheiro verde de um realismo esperançoso acontecem e aí eu me convenço por mais algum tempo de que sou curiosa demais pra desistir antes de conhecer e ser absolutamente tudo, então continuo.

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