Uma das poucas certezas que tenho é que, ao passar pela parte debaixo de um viaduto, automaticamente começarei a calcular qual automóvel passará por cima do meu e quais seriam os estragos caso o viaduto desmoronasse e esse veículo despencasse sobre a minha cabeça. Não importa o tamanho, modelo ou peso do veículo, em todos os cenários hipotéticos que criei, sobrevivo ao final.
"Perdi a poesia em mim" repeti mentalmente pelos últimos três anos. "Deveria ter insistido, mas agora ela se foi de vez" pensava. Porém, quando essas palavras finalmente foram ditas em voz alta, soaram como a maior mentira que eu já havia contado. Gargalhei ao telefone ao contar que há menos de dois dias atrás fui parar no hospital porque meu corpo falhou e não por ter sido atingida por um viaduto. "Garotas bonitas também morrem" disse a voz ao telefone. Fumaça com sabor de canela, David Bowie. Como uma criança que precisa de distrações pra não começar a chorar, eu pedi pra não desligar o telefone caso eu ficasse em silêncio. "Tô indo aí."
Era verdade que eu pouco me esforçava pra ser quem eu queria ser, era verdade que eu possuía tanta certeza de que um momento eureka aconteceria eventualmente que já encarei por horas o teto do quarto de um desconhecido esperando que esse momento me encontrasse lá, era verdade, toda aquela merda era verdade, o desgraçado nasceu com a capacidade rara de conseguir me ler e a culpa era minha, que soube disso na noite em que nos conhecemos e ele disse que eu era "a porra de uma personagem de filme" e eu ri e dancei e o beijei ao invés de sair correndo, como fiz com o último terapeuta. "Você já me perguntou ao menos três vezes sobre as piores e as menos piores formas de morrer e a gente se conhece há menos de um mês" levantei do ninho que havia feito no peito dele pra me defender olhando nos olhos do meu acusador "É pra um romance. "Vênus", é como vai se chamar." Vênus seria a minha melhor personagem: alguém que não trocaria contato com um cara que mordesse sua barriga na noite em que se conheceram, não precisaria telefonar pra um semi-desconhecido pra se livrar de seus próprios pensamentos, nem deixaria nas mãos do acaso a decisão de continuar viva ou não.
Enquanto amanhecia, eu observava, da barreira que eu havia criado ao abraçar seu abdômen e deixar só a metade de um dos meus olhos apta a enxergar, os primeiros feixes de luz aparecendo e desaparecendo conforme a respiração dele levantava e abaixava o lençol branco com flores em tons pastéis. Pensava em Vênus, no cheiro do hospital, na festa na casa de um amigo em 2013, quando passei a madrugada inteira organizando o armário de produtos de piscina dele, e em todas as crônicas que escrevi pela metade. Mas levantaria daquela cama depois de umas três horas de sono, me arrependeria de meia dúzia de coisas que confessei naquela noite, faria o café, regaria as plantas e provavelmente esqueceria de Vênus.
Era verdade que eu pouco me esforçava pra ser quem eu queria ser, era verdade que eu possuía tanta certeza de que um momento eureka aconteceria eventualmente que já encarei por horas o teto do quarto de um desconhecido esperando que esse momento me encontrasse lá, era verdade, toda aquela merda era verdade, o desgraçado nasceu com a capacidade rara de conseguir me ler e a culpa era minha, que soube disso na noite em que nos conhecemos e ele disse que eu era "a porra de uma personagem de filme" e eu ri e dancei e o beijei ao invés de sair correndo, como fiz com o último terapeuta. "Você já me perguntou ao menos três vezes sobre as piores e as menos piores formas de morrer e a gente se conhece há menos de um mês" levantei do ninho que havia feito no peito dele pra me defender olhando nos olhos do meu acusador "É pra um romance. "Vênus", é como vai se chamar." Vênus seria a minha melhor personagem: alguém que não trocaria contato com um cara que mordesse sua barriga na noite em que se conheceram, não precisaria telefonar pra um semi-desconhecido pra se livrar de seus próprios pensamentos, nem deixaria nas mãos do acaso a decisão de continuar viva ou não.
Enquanto amanhecia, eu observava, da barreira que eu havia criado ao abraçar seu abdômen e deixar só a metade de um dos meus olhos apta a enxergar, os primeiros feixes de luz aparecendo e desaparecendo conforme a respiração dele levantava e abaixava o lençol branco com flores em tons pastéis. Pensava em Vênus, no cheiro do hospital, na festa na casa de um amigo em 2013, quando passei a madrugada inteira organizando o armário de produtos de piscina dele, e em todas as crônicas que escrevi pela metade. Mas levantaria daquela cama depois de umas três horas de sono, me arrependeria de meia dúzia de coisas que confessei naquela noite, faria o café, regaria as plantas e provavelmente esqueceria de Vênus.
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