quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Requiem

"Men have called me mad; but the question is not yet settled, whether madness is or is not the loftiest intelligence – whether much that is glorious – whether all that is profound – does not spring from disease of thought – from moods of mind exalted at the expense of the general intellect." 
Edgar Allan Poe

Eu entendi. Eu finalmente entendi. Daqueles com cigarros nas bocas e metidos em discussões sobre livros com capas de couro, em cafés que imitam a aparência de um recinto britânico em 1942, àqueles que contam sobre a viagem internacional da neta, que acabou de se formar, quando me conhecem em um ponto de ônibus: eles todos sorririam para mim.

Aconteceu quando os minutos duraram horas e o tempo presente foi fragmentado em tempos menores que contavam alguma história com a cronologia adulterada. De qualquer forma, não importa nesse momento como, mas eu entendi. Queria dar um soco na cara dos dois amigos que não faziam ideia do que estava acontecendo e olhavam a mim, porque se tomasse um soco na cara de volta iria saber que aquela era a realidade e então eu não precisaria me preocupar. Entendi que era a realidade, no entanto, por ter pensado nas consequências antes.

Quando entendi que havia entendido, quis logo ligar pro único que achei que realmente me entendeu em toda vida, mas já havia passado mais de um ano e meio desde que passei a odiar a cara dele. Não liguei porque, se era mesmo a realidade, eu não iria querer a mulher que está com ele atendendo ao telefone e me ouvindo declarar, sem chance de resposta: eu entendi, eu espero que você tenha entendido antes e me deixado compreender sozinha porque você sempre soube que eu entenderia também, e obrigada por tê-lo feito, agora vou desligar porque há chances de você não ter compreendido ainda e isso eu não conseguiria suportar.

Percebi que me encontrava sozinha. Pensei em todas as vezes que achei que eu não era comum, de nariz prepotente empinado, que, pobre coitados os outros, jamais veriam como eu vejo. Pensei nisso porque, assim que a euforia da descoberta se foi, percebi que nunca havia sequer chegado perto de sentir tanto medo. O que eu me tornaria? Subitamente, desejei não ter entendido. Desejei voltar ao passado e gritar comigo mesma quando me achei especial demais, porque tudo o que eu queria agora era não ter entendido. Medo mesmo eu não sinto desde os 11 anos. Medo que paralisa, que adormece a nuca. Não havia estrada pra trás, a volta tornou-se inacessível. Desejei aquilo por toda vida e agora estava sufocando. Pensei na minha avó tendo que explicar pros seus irmãos, nos meus colegas de classe do ensino fundamental, na Sylvia Plath.

Comecei a lembrar de todos os relatos sobre cura que já ouvi. Gente que achou que a única direção era pra baixo, mas que teve uma corda de esperança jogada sobre a cabeça. Lembrei de todas as vezes que pensei no que havia de tão errado entre eles pra acreditarem nas próprias mentiras. Agora eu estava aqui, falando a verdade pra alguém não acreditar. Tudo antes era passível de análise, agora apenas de observação. Agora que entendi, aquilo não mais me servia; agora eu seria servida. Ah! Seria o melhor fim para mim, no entanto; se precisasse escolher, não resistiria à ironia em terminar desejando a normalidade salvadora, quando eu finalmente tive tudo o que eu sempre desejei. Tudo o que eu maldizia estava ali, dançado com os dedos entrelaçados uns com os outros, rindo do meu medo incontrolável, como se gritassem em coro na minha mente: nós tentamos avisar. E eles realmente tentaram durante vinte e três anos de boas notas e ficha criminal limpa.

Sempre fui orgulhosa por ter um controle que os outros não tinham. Só aceitava continuar viva pela ambição de poder habitar em um mundo particular onde reinavam aqueles que ainda não sabiam, mas entendiam, e aqueles que sabiam que entendiam. Eu os reconhecia antes da piscadinha de olho usual. Transitava ali metade do tempo fingindo que eu entendia e a outra metade com a certeza de que eu jamais entenderia. Com  o tempo passei a acreditar mais que não havia nada a entender, mas o que importa é que sempre soube que ainda não pertencia a nenhum dos extremos. Eu admirava aqueles que sabiam que entendiam porque neles eu enxergava a beleza do controle, enquanto admirava os que ainda não sabiam, mas entendiam, porque neles enxergava a beleza da falta de controle. A sombra do controle estava ali presente durante toda a minha vida consciente, sentia como se eles tivessem esperanças em mim, por isso me deixavam passear por ali, mas eu nunca soube como, e era insuportável decepcionar a todos que eu admirava. Mas, como não controlo?, agora eu entendo, eu entendi!, eu deveria estar no controle. Então fez sentido. Van Gogh, Allan Poe, o profeta-morador-de-rua da esquina do meu prédio que anda pelado no frio gritando que alienígenas o sequestraram, eles fizeram sentido. Nem uma vez sequer pensei nas consequências. Achava já conhecer Carl Sagan e Foucault e Sartre e Maquiavel e Hemingway e Bob Dylan demais. Mas Newton não tinha controle, Mozart não tinha controle. Cada um deles entendia isso. Foi como se eu houvesse morrido pra entender uma última coisa. Mas não era o óbvio?

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