quinta-feira, 6 de outubro de 2016

incerto

seus olhos só me encontram quando em meio a uma multidão. mas o silêncio em seu abraço, que comprime tão forte as minhas costelas que passo a compreender os grãos de areia, que roga para que os nossos ossos se encontrem, que no durante parece infindo, que inspira todo azul dos meus pulmões, que expira a única brisa que não contrai o meu pescoço, que substitui cósmicas incertezas por pormenores, que explica a fotossíntese as chuvas o dna o espaço-tempo e a metafísica, o silêncio nesse abraço sabe me dizer como dançar. e vou, na tua dança, vou com todas as dúvidas que só um poço sem chão aparente, uma galáxia desconhecida e incerta como você pode gerar. e não é que gosto?. gosto. gosto mas não tenho tanto tempo assim, veja: vamos morrer e essa nem é a pior parte. vamos viver, antes. mas viver é dúvida, então como quero certeza? não sei. eu não sei de muitas coisas, mas há ainda a possibilidade de viver e eu preciso de só uma certeza pra abraçá-la. você pode me gerar ad infinitum toda dubiedade imprecisão ambiguidade que explode em mim, que explode em você, que nos explode quando juntos, a gente combina de não sermos só um, mas, suplico, esconda uma única certeza em seu abraço. eu prometo que a encontro. eu a procuro em todos eles, e em sua voz que me inspirou crônicas e contos e livros e músicas e todo tipo de arte que eu tenho tentado exprimir, produzir, interpretar, e em sua sobrancelha tão forte que me obriga a sempre querer interpretar os seus olhos e nos poucos sorrisos honestos que você gera quando estamos na multidão, mas você me olha nos olhos e sabemos que estamos na multidão mas que temos todos os segredos só nossos a salvo. disso ninguém mais sabe, você me disse uma vez. ninguém mais sabe de mim também, querido, então por que ainda há uma multidão?

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