Sempre que tô bonita, tô comigo mesma. Não é proposital, veja, a minha porta já nem tem chave. Mas apesar de Gal Costa ter me ensinado muitas coisas, sempre me coloco na frente do vento como forma de punição pro cheiro que exalo sem querer exalar, pras palavras de digo sem querer dizer e pras coisas que faço porque quis fazer. O que faço não querendo fazer paga as contas, sempre foi assim. Mas eu vou me mudar de novo, perdi o respeito de todos outra vez. Só restam dois amigos que ainda riem de mim, apesar dos que me ligam às sextas. "Vamos sair?" "tanto faz" "passo aí em trinta minutos" "tá". E vou. Na vida, na pesquisa acadêmica, na carreira. Eu vou, eu tô indo. Mas só me sinto bonita quando num quarto comigo mesma e talvez um bloco de notas, talvez um álbum de blues, talvez o relógio marcando 17h56 e a janela iluminando delicadamente o cômodo e a mim com o pouco de luz natural que restou. Mas e aí, quem entenderia? Ninguém por muito tempo. É peculiar, às vezes curioso e até empolgante, sentem-se desafiados; mas é só por um tempo. Depois é só "por quê?" e às vezes até respondo que Quintana já disse por mim que quem faz sentido é soldado, ah!, garota esperta, esse cerebrozinho sempre tem uma citação, né?!, "mas, sério, por quê?" aí eu perco a paciência, quebro a garrafa, vou embora. Esse meio termo que a gente tem se tornado me dói na espinha. Mas são eles todos que estão certos e eu sei disso; com um honesto sorriso no rosto e alívio no peito, eu sei que são eles que estão certos. São eles com diplomas e bebês e brunches. E por que seria eu? Eu só sei falar do poeta, do astrônomo e de mim - e não entendo de nenhum desses. Meu café sempre acaba antes de eu ter chegado a alguma conclusão e eu fico aqui, só ocupando a mesa e observando as pessoas passarem pela rua, até que alguém ligue anunciando onde vou desperdiçar essa noite.
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