terça-feira, 13 de setembro de 2016

Silenciador

"And though I wear a uniform
I was not born to fight." 
Leonard Cohen


Assumi que não era uma boa pessoa antes da virada do milênio. A decadência foi sempre beleza pra mim, e estar sempre vestida com roupas limpas era meu o único cinismo proposital e uma forma particular de gargalhar desse século. Minha cabeça sempre doía, eu sempre sorria. "Que futuro brilhante pela frente!". Acreditei quando estava na quarta série e tirava notas mais altas que Jéssica, a menina cujo intelecto fora um dos poucos que eu respeitei em toda vida. Bom, teria que ser assim, pois nunca perdi totalmente o controle, em hospitais, templos e grupos de apoio, sempre implorei pra ser salva, e não suportava ver sangue. O futuro, então, era a única opção e nele os dias sempre eram verdes demais e cheiravam como terra molhada pela chuva. Mas então percebi que eu nunca visitava médicos enquanto consciente, fumava e bebia, não comia alface há uns quatro anos, só eu sabia daquela hemorragia nasal e esperança concreta só lembro de ter conhecido quando terminei o colegial aos 16. Eu nunca precisei de uma arma. 

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