sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Das coisas que esqueci de te contar

Enquanto me deitava no chão, tentei não concentrar meus pensamentos na mármore me causando calafrios enquanto roubava o pouco de calor que ainda havia em mim.

Me pergunto qual seria a sua reação se eu dissesse que imagino o pós-guerra da cor dos teus olhos. Eu, que não quis nascer até o fim do bloco soviético, que não sei da guerra, não sei dos teus olhos.
Nem um souvenir tangível. Lembro da tua inquietação enquanto fazia aquela coisa de atravessar palhetas entre teus dedos, teu olhar vago encarando um quadro empoeirado do Willie Nelson em um canto do quarto. Eu fazia das tuas coisas, filmes. Eu era a Audrey e poderia ter dançado a noite toda.

Se houvesse pensado melhor, teria colocado as chaves e minha bolsa no chão e me deitado no sofá - e não o contrário.

Consigo fazer poesia sobre a frágil luz entre os pequenos buracos à esquerda das folhas, sobre a ferrugem no prendedor que as segura, das miudezas que vi em quem exige ter reconhecida a genialidade, sem se importar com a existência da mesma, mas quando teus olhos de guerra me encontram, qualquer argumento vira fumaça entre minhas mãos. 
Minha mente, tão congestionada e finita, quer enxergar tuas migalhas no caminho até a padaria. Não questiono se são realmente tuas, mas vou.

Me distraio tentando imaginar como ficaria meu rosto se esse lustre despencasse bem agora.

Espero que me amaldiçoando estejas, agora, bêbado e perdido na Europa em crise. Da tua voz em meu gravador restaram as vezes que me insultou, e teu ódio visceral se tornou o mais lindo sentimento.
Sou como a lagartixa paciente em minha parede - você é mosquito.

Meus dedos não conseguem conter o balanço de minhas têmporas e minha espinha inteira dói junto a minha cabeça.

Tenho me doído constantemente por todas as pobres palavras aleatórias que adoram ser exibidas e pelos sobrenomes dos culpados por isso. Por isso não me exponho mais para plateias maiores que Você, pois por vezes não acerto a vírgula - o acento, o tempo, o pensamento, o contexto ou sentimento - e não posso mais ser um degrau para o ego deles. Por essa razão teus olhos de tensão pré-guerra se fecham, empoeirados, em minhas gavetas. 

Estou protegida do infinito por cinco apartamentos em meu teto. Esse, que é meu objeto de estudos e pesadelos.

Me tornei o fim das coisas, independente do que era o começo. Isso não vai mudar, por mais que eu aceite tão mal quanto a mortalidade, quanto aos enjoos que achei que eram culpa da inércia, quando a culpa é minha. 
Você só sabe das flores no meu cabelo e, eu me pergunto, qual seria a sua reação se dissesse o que imagino dos teus olhos?




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