Da janela vejo a rua abaixo, a cadeia de montanhas abrigando a lua e inúmeras outras janelas. Ouço bem mais do que vejo, entretanto; as cigarras, o senhor do andar debaixo pigarreando, interruptores, gatos, conversas e todo resto. Sinto, porém, mais do que vejo, ouço e existe.
Não vejo ou ouço mais você. Percebo, como naquela véspera de carnaval, quando me distraía com os futuros foliões passando ao invés de me concentrar em sua língua em meu pescoço, que não é apatia, é a imensidão. Mas se me olhasse, te olharia. Se me quisesse, fazia como alguém que te queria. Por vezes não te olhei, mas percebi. Eu percebi em todos os lugares, em todas as dimensões pra onde me levou, você me notando e notando por mim. E corroía tudo o que se atrevia a nascer dali. O que eu via era você me vendo e me dobrando de tamanho, mas por que, se não havia apenas os seus olhos?
Eu morri todas as vezes em que percebi que era isso o que eu via, mas estava viva o suficiente pra sentir ao perceber que estava errada.
Não vejo ou ouço mais você. Percebo, como naquela véspera de carnaval, quando me distraía com os futuros foliões passando ao invés de me concentrar em sua língua em meu pescoço, que não é apatia, é a imensidão. Mas se me olhasse, te olharia. Se me quisesse, fazia como alguém que te queria. Por vezes não te olhei, mas percebi. Eu percebi em todos os lugares, em todas as dimensões pra onde me levou, você me notando e notando por mim. E corroía tudo o que se atrevia a nascer dali. O que eu via era você me vendo e me dobrando de tamanho, mas por que, se não havia apenas os seus olhos?
Eu morri todas as vezes em que percebi que era isso o que eu via, mas estava viva o suficiente pra sentir ao perceber que estava errada.
Mas não foi só por mim, não, esse tanto de amor próprio não dança em meu peito.
Se sabe que sei das brigas que comprou em meu nome, sabe também das chances mínimas de achar alguma honra ali. Mas não liga, não ligo. Aliás, preferia ter os dois pulmões perfurados pelo mesmo tiro do que pensar em nossa próxima ou última conversa.
Teu punho cerrado nas minhas costelas contrastando com o cheiro adocicado do perfume que você usou no primeiro dia. Caminhadas até a lua corroídas pela bruta corrida pela calçada. O barulho dos pneus dos carros tentando frear brincando de roda com o canto do vizinho daquele apartamento que arrombamos. O sangue no asfalto negro e os cascos das cervejas que encontramos no depósito destrancado. A noite e o crepúsculo do dia vinte e quatro. Os gritos das pessoas e o Lóki? que ouvimos quando subimos a serra. Você gritando o meu nome, você gritando o meu nome. Lamentações mais fortes que as contrações do parto da filha que não educamos se sentam com os pés pra dentro de um poço seco. Chuva de canivetes no parquinho no qual eu, há pouco, brincava de gangorra.
Penso em você, agora, como consequência da guerra dos trinta anos e da contrarreforma, e me conformo, então, em manter os braços abaixados.
Penso em você, agora, como consequência da guerra dos trinta anos e da contrarreforma, e me conformo, então, em manter os braços abaixados.
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